CRASH-3 Study: Sangue, suor e lágrimas

CRASH-3 Study: Sangue, suor e lágrimas

Recentemente tivemos a publicação do estudo CRASH-3, que estudou a utilização do Ácido Tranexâmico em pacientes com TCE moderado a grave (Glasgow  ≤12), com a expectativa de redução de mortalidade em 28 dias.

Nossos alvos principais nos cuidados destes pacientes são controlar o sangramento, evitar hipotensão e hipóxia, pois são os três fatores que resultam em piores desfechos para esse público.

O racional para a utilização da droga é a inibição da fibrinólise, um dos principais mecanismos responsáveis pelo aumento ou perpetuação do sangramento intracraniano, em pacientes vítimas de trauma.

O estudo, multicêntrico, placebo controlado e cego, randomizou pacientes com Glasgow ≤ 12, sem outros sítios de sangramento, a não ser o sistema nervoso central, para receberem 1 grama de ácido tranexâmico em 10 minutos, seguido de 1 grama infundidos em 8 horas ou placebo.

O desenho inicial do estudo previa a infusão do medicamento em até 8 horas do trauma, porém foi modificado para até 3 horas do trauma, em 2016, devido a novas evidências a respeito do tema, demonstrando maior benefício com a infusão precoce em até 3 horas.

Os 12237 pacientes foram incluídos entre 2012 e 2019, em 175 centros em 29 países, dos quais 9202 receberam a intervenção em até 3 horas do trauma.

Quando avaliados todos os pacientes participantes do estudo, não houve diferença na mortalidade encontrada, sendo 18,5% no grupo da droga e 19,8% no grupo placebo (0,94 (0,86–1,02). Porém na análise de subgrupo prevista, em que houve a separação conforme a escala de coma de Glasgow e o exame pupilar, houve diferença na mortalidade de pacientes que apresentavam TCE moderado a leve, com mortalidade de 12,5% e 14%, respectivamente. (0,89 (0,80–1,00), conforme figura 1.

Figura 1.1

Além deste achado, outro ponto que merece ser comentado, é que quando olhado a relação entre o tempo para iniciar a infusão da droga no grupo de pacientes com TCE de leve a moderado, houve diferença significativa, em favor da precocidade de tratamento para este grupo (p= 0,005).

figura 2.2

Outro ponto bastante importante de ser lembrado, é que o tratamento tem o alvo específico de diminuir o sangramento e consequentemente a morte direta por este motivo. Sendo assim, a utilização do desfecho de mortalidade em 28 dias de qualquer causa, provavelmente envolve outros fatores em que o uso da medicação tem efeito nulo. Portanto outros futuros estudos, deverão ser analisados, com foco específico na mortalidade precoce e direta pelo trauma.

Esse estudo, é o primeiro, que traz algum alento, em relação ao uso de medicamentos, para a redução da mortalidade em pacientes vítimas de TCE, que se mantém ainda, como uma das principais causas de mortalidade ou de perda de autonomia para uma parcela da população extremamente jovem e economicamente ativa.

Além disso, avaliando os três grandes estudos com ácido tranexâmico, CRASH-2, WOMAN e CRASH-3, uma mensagem fica clara: o uso da droga reduz mortalidade por sangramento em cenários diversos, e deve ser administrada de maneira precoce, em até 3 horas do evento ocorrido.

 

Essa postagem é de autoria de Dr. Eduardo Pacheco, médico preceptor do programa de Medicina Intensiva da Universidade Federal de São Paulo, sócio fundador da PacienteGraveUTI.

 

Referências

  • The CRASH-3 trial collaborators. Effects of tranexamic acid on death, disability, vascular occlusive events and other morbidities in patients with acute traumatic brain injury (CRASH-3): a randomised, placebo-controlledtrial. Lancet 2019.
  • Cap, P A. CRASH-3: a win for patients with traumatic brain injury. Lancet 2019.


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