Débito Cardíaco e Cálculo de VTi

Débito Cardíaco e Cálculo de VTi

O débito e o índice cardíacos são variáveis de monitorização hemodinâmica que nos auxiliam a guiar a terapia de pacientes que estão em choque circulatório. Muito embora saibamos que o débito cardíaco não deva ser avaliado pelo seu valor absoluto, mas sim contextualizado frente ao cenário clínico no qual o paciente se encontra, é sempre interessante traduzirmos em números os efeitos de nossas intervenções (hidratação venosa, uso de drogas vasoativas e inotrópicas).

Como a terapia intensiva tem se tornado cada vez mais prática, alguns métodos de monitorização hemodinâmica invasiva, como o famoso cateter de Swan-Ganz têm perdido espaço na prática diária. Não que eles não sejam mais usados; mas, notadamente, métodos menos invasivos, como os dispositivos de termodiluição transpulmonar, e não invasivos, como a ultrassonografia, têm se incorporado de modo consistente na rotina do cuidado ao paciente grave.

Sobre a ecocardiografia (ou, melhor dizendo, sobre o estudo ecográfico dirigido), o desafio é conseguirmos obter medidas de volume utilizando um método de imagem bidimensional. Em outras palavras, como conseguiremos quantificar o volume ejetado pelo ventrículo esquerdo, por meio de medidas lineares?

A resposta para essa questão passa pela compreensão do cálculo do volume sistólico por meio do VTi.

A fórmula do débito cardíaco é volume sistólico multiplicado pela frequência cardíaca. A frequência cardíaca é facilmente obtida por meio da monitorização cardioscópica. Já para o cálculo do volume sistólico, iremos recorrer à ultrassonografia.

Durante a sístole, o sangue é ejetado pelo ventrículo esquerdo e passa através da válvula aórtica. Dessa forma, devemos considerar o volume sistólico como sendo o volume de um cilindro, cuja base é a área da via de saída de VE (válvula aórtica) e a altura é a distância percorrida pelo sangue em cada batimento cardíaco.

Para calcular a área da via de saída de VE, devemos posicionar o probe na janela paraesternal eixo longo. Dessa forma, conseguiremos expor toda a via de saída de VE e, na sístole, flagraremos a abertura dos folhetos da válvula aórtica (folhetos coronariano direito e não coronariano). Nesse momento, devemos medir a distância de entre ambos os folhetos. Esse é o diâmetro da via de saída de VE, cujo valor normal se situa entre 1.8 e 2.2 cm. Se considerarmos que a válvula aórtica possui um formato circular, sua área pode ser calculada por meio da fórmula da área do círculo (), onde o raio é metade do valor do diâmetro.

Se tivermos, por exemplo, um diâmetro de 2.0 cm, a área da via de saída de VE será:

Agora, precisamos saber qual a distância que o sangue percorre em cada batimento. Para isso, devemos utilizar o recurso do doppler pulsado. Na janela apical cinco câmaras, o cursor do doppler deverá estar alinhado com a via de saída de VE, e o envelope, logo acima da válvula aórtica. Isso nos permitirá realizar um traçado da velocidade do sangue ao longo do tempo. Note na imagem abaixo que a velocidade do sangue é variável. Há uma fase de aceleração, uma velocidade máxima e uma fase de desaceleração. Tudo isso ao longo da sístole de VE. O cálculo da área sob o gráfico de velocidade pelo tempo nos fornecerá a distância que o sangue percorreu naquele batimento. E esse é jutamente o VTi, ou integral da velocidade pelo tempo. Isso significa dizer que o VTi é uma medida de distância e seu valor normal se situa entre 18 e 22cm.

A cada batimento cardíaco, o sangue percorre através da aorta, uma distância em torno de 20cm. Se utilizarmos esse valor pelo valor da área da via de saída de VE, teremos o volume sistólico.

Por fim, multiplicando o volume sistólico pela frequencia cardíaca teremos o valor do débito cardíaco:

Conhecer um método é tão importante quanto conhecer suas limitações. Alguns fatores como a presença de disfunção valvar (estenose e insuficiência aórtica), arritmia cardíaca e, sobretudo, a técnica do examinador podem influenciar no valor calculado do VTi e, portanto, do débito cardíaco. Dessa forma, é necessário a realização de um treinamento supervisionado a fim de obter um exame acurado.

 



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