Uma taquicardia não tão preocupante assim

Uma taquicardia não tão preocupante assim

Você está de plantão em uma sexta-feira de noite e às 4 horas da manhã, recebe uma ligação a respeito da transferência de um paciente. Trata-se de um senhor idoso, hipertenso e diabético, que deu entrada em um serviço externo com quadro de infarto agudo do miocárdio, com supradesnivelamento do segmento ST.

Lá, foi procedido à trombólise com relato de melhora da precordialgia e com redução do supradesnivelamento. A equipe externa gostaria de transferir o paciente para a sua unidade a fim de realização de cateterismo e, se necessário, angioplastia.

O paciente é transferido, chega até o hospital e adentra em sua UTI. Você percorre todo o caminho até que a equipe o acomoda no leito e o monitoriza. Então, você olha no monitor e percebe que ele entra e sai de um ritmo de taquiarritmia, intercalando um traçado sinual, com um traçado de ritmo ventricular intermitente.

Chama a atenção o fato do paciente estar assintomático, sem dor, sem dispneia, sem hipotensão e sem sequer queixar-se de palpitação. Nesse contexto, você solicita a realização de um eletrocardiograma de 12 derivações.

 

O que fazer? Deveríamos cardioverter? Iniciar amiodarona EV? Será que ele está infartando novamente?

Lembrando-se de seu academicismo, você procura ondas P no traçado acima, mas não as encontra. Depois, confere o intervalo QRS e constataque ele está alargado (>120ms). A fim de saber se a origem do estimulo é supraventricular ou ventricular, procede, então, aos critérios de Brugada. Há ausência de RS nas derivações precordiais? Sim! O diagnóstico é feito: trata-se de um ritmo cuja origem é ventricular!

Juntando todos os dados: síndrome coronariana, trombólise, ritmo ventricular com frequência cardíaca de apenas 107 batimentos por minuto, com o paciente assintompatico… não há dúvida! Trata-se do ritmo idioventricular acelerado (RIVA)!

O RIVA é classicamente visto na fase de reperfusão de um infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento de ST. O mecanismo proposto para sua ocorrência seria o aumento do automatismo de um marcapasso ventricular, cuja frequência de disparo se torna maior que a frequência do nó sinusal. Trata-se de uma arrtimia benigna, assintomática e autolimitada. Na verdade, o RIVA se enquadra em um dos critérios de reperfusão coronariana após trombólise, juntamente com melhora da dor e redução do supradesnivelamento.

Geralmente não há necessidade de uso de antiarrítmico e tampouco de cardioversão elétrica. Somente a correção de distúrbios hidroeletrolíticos, como por exemplo hipocalemia ou hipomagnesemia, podem se fazer necessários. Em raros casos de pacientes com insugficiência cardíaca e que cursam com síndrome de baixo débito, pode-se tentar a administração de atropina a fim de se aumentar o automatismo do nó sinusal. Nas sábias palavras de um cardiologista: “a única taquiarritmia que resolve transitoriamente com o uso de atropina”.



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